Não há história tão grande que não possa vir embrulhada num trapo de chita, nem história tão pequena que não valha a pena ser lida sem motivo aparente.
Desaconteci. Desconheci de repente o monolito no espelho: eu? Quem? Desfareleci. Dormi sã e acordei desnomada. Doutor disse que era cabeça; mãe disse que era cigarro e friagem; padre apostou em males do espírito – é o coração raquíííítico. Desacreditei um e outra e outro e fui à feira como num dia normal querendo dar motivos pro mundo me reconhecer. Seu Jovélio teria que me dar bom dia, dona. Seu Pedro, bom dia, moça, já vai cedo? A calçada em atrito com meus pés projetaria meu corpo para o futuro ali adiante; o cão vagabundo farejaria minhas pernas pra investigar o entorno em preto e branco; eu mataria formigas sem ver e levaria a mão à boca ao espirrar; os motoristas aguardariam minha marcha sobre a zebra do asfalto e eu chegaria à feira sem desditas, repetindo ordinariedades amistosas, irmanando-me com os humanos ao me guiar pelo mundo usando a bússola que todos levamos por dentro: uma tal que aponta pro norte da rotina e nos livra dos sustos de tragédias e esplendores desconhecidos. Tudo sucedeu assim. Por fora. Por dentro não. A paisagem se despigmentava ou era eu que desalvorecia? A barraca de folhas tinha mais vida do que eu podia suportar. O agrião, por exemplo, se soubesse e falasse, diria isso de si: sou verde e parrudo. Crudelíssimo. Eu sabia, falava, mas não me descrevia. Descria da desvantagem que levava por saber. Pedi um maço só pra alimentar a inveja. Paguei e voltei. Na pia, o agrião verdejava sem querer, e eu, querendo o oposto, desaguentava fininho, um filete de gente. O dia terminou com o telejornal mostrando imagens de enchentes no norte do país. Na tela, close numa plantação de agrião submersa; close no dono do campo alagado, um velho curtido chorando o susto que sua bússola não indicou. Aquilo doeu em todos, nos que vendiam e nos que compravam verduras. Só não doeu nas folhas afogadas, ignorantes de si mesmas. Bem-aventurados os que nascem agrião, gritava o pastor na TV. Dormitei. Sonhei que acordava desacontecida e sem ciência de ser ao revés, desumanada e verdinha, embrulhada e vendida na feira como um maço parrudo.
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Um tiro. Pá! Seco e quebradiço. Corri à janela pra ver quem era. Dona Doida, à direita, levantava o vestido azul de menina rota de Renoir e arriava a calcinha pra urinar entre as árvores da avenida Higienópolis. Imprecava contra as vozes, inimigas suas que lhe recordavam sempre quem era. Puta é sua mãe! O tiro não foi pra elas. Dona Doida voltou a dormir no meio-fio. À esquerda, quatro da manhã e ninguém mais existia em matéria na rua Maria Antônia. As pessoas minguavam às onze e meia e terminavam de existir às duas da manhã com os olhos fechados. Coisa que mais me dá poderes sobrehumanos é estar desperta nessas horas em que o mundo morre sob a ignorância do sono. Quem mais teria ouvido o tiro senão eu? Quem mais, às quatro, estaria pronto a investigar a sorte de um qualquer atravessado por uma bala enquanto ele ainda agonizava? Quem, senão eu, zumbi no sétimo andar, fumaria com gozo celebrando a descoberta de um crime oculto até para o assassino, semi-cego na penumbra de quem vi o vulto culpado e nervoso? Quanto poder, meu Deus! Na manhã seguinte, às oito, o jovem casal do 75 entrou comigo no elevador. Bom dia – eles. Bom dia – eu. Alheios ao crime daquela madrugada, foram à padaria quase na mesma passada que eu. Pegaram a fila do pão junto comigo e pediram cinco dos mais torradinhos; pedi os dois mais lívidos da fornada. O casal tinha uma cara limpa e boa e a boca deles exalava hortelã com juá. A mulher, sem mais, perguntou se eu havia dormido bem. “Passei a noite conhecendo o futuro antes”, pensei. – Sim, dormi bem, obrigada – respondi. A pergunta não era retórica. Pelos vincos nos cantos dos meus olhos, ela desvendava meus superpoderes. Saber demais dá rugas. No fim da vida, terei a topografia do mundo tatuada na cara, e meu rosto estará nas capas dos livros de geografia. Quanto poder, meu Deus…
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Fazia um calor de caldeirão bem onde eu não alcançava abanar: no espaço que vai do miolo do osso ao avesso da pele, mas sem transpassá-la, na extensão do corpo todo, do calcanhar ao centro do crânio. O couro da alma curtia além da resistência das fibras e em breve quebraria. No sétimo andar chegou-me, às onze da noite, a excitação dos calouros da rua Maria Antonia no primeiro dia de aula. Putas-que-os-pariram!, roguei. O burburinho quase abria a janela para sentar-se ao parapeito e me espiar expiando. Não estivesse eu morta, sem querer misturar-me ao mundo e suas alegriazinhas sem mais, convidaria uns três da multidão pra me soprarem o tutano a noite toda e me ninarem com as marchinhas de grêmio, cornetões e um roçar dos dedos cheios de tinta nas minhas têmporas. O calor começou no jantar, que foi assim: uma mesinha redonda, duas cadeiras (uma vazia), um prato, talheres, um copo e cinco minutos. Arroz com feijão e couve são execráveis quando não há alguém que lhe passe a farinha e pergunte: tem couve aqui, ó? (apontando entre o canino e o pré-molar); ou: viver te incomoda?. Ô!, eu diria, espargindo farinha pelas bordas do prato, nos cabelos e braços, querendo mostrar como a vida, àquela altura, havia perdido seus encaixes. Abri a janela e atraí a brisa que às duas da manhã estava só; os calouros já se haviam ido e com eles a alegria do mundo. Adormeci ensimesmada, emulando as virtudes da couve que não tem tutano abrasador e esmiuçando a memória em busca de uma voz que ocupasse a cadeira vazia no próximo jantar. Às duas e meia recebi uma visita. Ela não me despertou, desfrutou-me. Comeu os espólios da decomposição do meu corpo, peles, comeu meus pêlos, sugou o suor entre os meus dedos e percorreu a ponte branca do meu braço querendo alcançar o manancial da minha boca aberta simulando fartura. Despertei antes e pulei da cama ao chão com uma rapidez que não me pertencia. Ba-ra-ta-fi-lha-da-pu-ta!, gritei. Sob a luz ela recuou, correu para baixo dos lençóis. Eu a cacei, enfrentamo-nos. Eu venci, mas nem tanto. Esparramadas pela cama, porçõezinhas de bosta de barata-saciada-com-meu-corpo. Até às quatro não dormi, acuada num canto do sofá comendo sucrilhos com leite no açucareiro (faltavam copos), emulando a bestialidade dos calouros, a potência das cornetas e marchinhas idiotas, a impassibilidade da farinha que se deixa manejar sem nunca se queixar do próprio destino. Meus ossos, de tão quentes, comportavam tutano líquido, e o couro da minha alma crestava só d´eu respirar.
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Tenho uma saliência no caráter que é esta: gente manca me desvirtua o período fértil. Meu coração umedece com tal água que sou capaz, só de olhar um coxo, de conceber e dar à luz mil crianças que desenham equívocas formas na areia enquanto correm atrás de cachorros. Tem razão isso? Aos sete anos de idade meus amigos eram os obesos, os estrábicos, os bestas sem culpa, os de nariz remelento, os fedidos sem solução, as vítimas de estupro e os de cabelo vermelho – cheguei a bater num perfeitinho que pegou um extintor e o apontou a um ruivo só pra dele fazer troça. Simetria e fluidez nunca me valeram. Eu arrancava perna de boneca, galho de árvore e até quebrava ovo de páscoa nas prateleiras dos supermercados pra que tivessem a cara dos amores que eu sabia arregimentar. Talvez, assim, buscasse meus iguais: sempre intuí que era vesga, ruiva, besta e violada por dentro. Restringi meu apreço só aos mancos aos dez anos, quando meu ventre precoce arrebentou de tanto parir. Agora, aos trinta, me acossam uns tremores de abstinência. Quero de volta essa gente que, aos olhos da exatidão, foi entregue ao mundo num pacote amassado com a data de validade vencida. Oxalá as fibras do meu útero se recomponham pra eu parir um hipermercado inteiro, do tamanho universo, só com gente imprópria pra consumo.
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Decidi escovar os dentes para perpetuar com força a sensação de limpeza que escova e pasta juntas me dão mais que um ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Com espuma e detritos escorreram pelo ralo todas as impurezas borbulhando nos vãos da gengiva e do pensamento. Escovei meus dentes até que se esfarelassem entre as cerdas, e com eles a língua, a mucosa, o palato, as amígdalas, depois os ossos e o resto todo da cara. Chamaram-me do lado de fora batendo à porta do banheiro. Queriam entrar. Do lado de dentro, porém, onde o milagre ocorria, nem um gemido ganharam: de tão limpa, eu já não estava lá.
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Mas foi na página 165 que desfaleci de amor pelo príncipe idiota, prolixo e bom, esse de quem Dostoievski emprestou as entranhas de Cristo e as remoldou com massa de biscuit. Frágil e estupidamente sincero, o príncipe russo me salvou de ter uma pena mortal de mim mesma por causa das minhas canelas finas. Quando eu quis acreditar que toda pessoa é intrinsecamente mentirosa, e que a honestidade é uma corrupção do caráter – só assim me livraria do remorso de mentir que não uso saia porque frio embaixo me dói nas trompas de falópio –, apareceu-me o príncipe, no livro, anulando as dubiedades do mundo para tornar a verdade mais saliente – mesmo que saliente se tornasse, também, sua idiotice. Quem resistiria à suculência de um caráter que acolhe e expõe num vaso, feito um lírio estupendo, as próprias misérias? Teodora logo notou que eu estava de caso com alguém superior: eliminei a cera inútil das palavras e passei a suspirar e depilar as pernas com mais frequência. Vai sair?, Teodora me perguntou numa sexta-feira à noite (eu com um vestido expondo as coxas, nuca à mostra e um buquê nas mãos). Ãham. E vai aonde? Se eu já havia chegado ao fim do livro, aonde mais iria senão me casar com o homem que me acolhe as misérias? Na carteira do príncipe há, hoje, duas fotos: uma nossa, nas bodas, e outra só minha, linda, dos joelhos pra baixo – dois lírios estupendos.
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– Tem jeito de não querer fazer as unhas?
– Ela insiste pra subir, dona.
– Diz pra ela que não preciso.
– Mas ela insiste, tá até com espuminha de manicure e lixa.
– O senhor já tentou insultá-la pra ver se ela desiste?
– Ah, não, dona, ela tem nome de lugar sagrado, Belém (num crescente), Belém! Belééém! E Belém eu não insulto não.
– Tá, deixa subir.
Não havia princípio, mas o fim último de todas as coisas. Teodora dizia, pra me fortificar a esperança (ignorando que a esperança mortifica quem não a tem), que o mal estar era temporário e que lá no fim, onde os fios de algodão da tapeçaria divina se encontram num emaranhado disforme, havia uma resposta metafísica tão lógica e sublime que eu morreria de êxtase ao descobri-la, feito Santa Teresa com a flecha no peito, cara de gozo e um novelo nas mãos. Teodora, depois de dizer isso, puxou-me pelo braço e colou a boca na minha orelha pra sussurrar uma frase que ninguém mais no mundo ouviria: “a ignorância é o que te mata, mas farejar a felicidade é o que te mantém viva”.
– As unhas? (suspiro) Sim, Belém, quero feitas.
Teodora só não me disse que para desfazer o mafuá divino eu teria que percorrer cordinha por cordinha, ora me equilibrando sobre elas, ora com os pés suspensos, segurando-me aos fios e aguentando nos pulsinhos de canário meu peso de mundo. Só assim eu conheceria os caminhos do Senhor e saberia, no fim dos tempos, por onde começar os trabalhos de elucidação do mistério de uma vida inteira.
– Belém, cuidado com esse bife, catzo! (sangue)
Belém decepava meus cantinhos com o pretexto de invadir minha vida. “Ai, olha essa carne sangrando, essa carne, essa carne… você tem (pigarro) ééé… tem feito (pigarro)… isso de… (tosse)”.
– Sexo, Belém?
(Belém enrubesce, baixa os olhos e seca meu sangue com um paninho; depois, ajeita a medalha do Carmo no peito pra proteger as entranhas do que vai ouvir)
– Belém, por que continuar na superfície? Prefiro te descrever o céu. O céu me cobre sem pesar no meu corpo, não me ofende, nem por dentro, nem por fora. Me sopra de um lado pro outro querendo que eu sinta a gravidade zero brotando das suas mãos sem digitais. Se eu digo que pare, ele não para de todo, antes, me ludibria com sopros no pescoço enquanto sonda meu corpo pra descobrir onde quero ser tocada sem angústias. O céu é todo liso e sem bordas. Quando a chuva abunda, ele verte, e não me molha só partezinhas do corpo, como as unhas que você umedece nesse potinho de plástico com cinco furos. Molha-me de todo, de súbito, e de mim, em segundos, só diz a água, que do céu é a promessa de amor perene: quando não me refresca por fora, me liquefaz por dentro. Não me deixa nunca. Por tudo isso, Belém – e apesar do artigo “o” e do pronome “ele” que o antecedem quando o invoco – concluo que o céu não é homem. O céu é uma mulher, uma mu-lher, Belém. Entende isso?
Belém tossiu e perguntou se eu queria esmalte claro perolado.
– Não, quero carmim, o carmim que tingia o corpo de Santa Teresa quando ela desenrolou o novelo divino e gozou por toda a eternidade.
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Abri a janela para despejar uma varejeira camuflada no voal e aproveitei pra gritar e ver se me livrava de mim também: Eloi, Eloi, lama sabachthani? Isto é, Senhor, Senhor, por que me abandonaste? Dos céus (11º. andar) chegou a resposta: não chama Eloi, não, sua anta, que é cedo e ele vai acordar puto com você! Te desce um cacete que ce nem vê e eu ainda chamo o zelador pra te multar! Voltamos a dormir, a varejeira e eu. Nos sonhos, Eloi, com barba branca e uma receita azul na mão, apareceu-me dizendo um chiste assim: Louvada seja Nossa Senhora Duloxetina. Eu, sob efeito das graças da santa, respondi com a boca mole: para sempre seja louvada.
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Escrevo palavras rudes sem pudor e engrandeço: caibo, carvalho, poroso, cominho, própolis, cação, matilha, violáceo, papua nova guiné. Isso é grave, doutor? Doutor botou luvas de látex temendo pegar rudeza pelas mãos. Escreve coentro, também? Escrevo! E feito uma louca! Escrevo coentro em memorando, em carta de amor, em contrato, em receita de torta, porta de banheiro, em folha de cheque, banco de ônibus e post it. Só me falta escrever em bilhete suicida. Humm. Escreve compulsivamente, então? Sim. Alguém te lê? Não, nunca. Por quê? Porque o mundo não tá pra rudezas. Hoje o povo (povo é rude) prefere essas mais leves assim: marola, morango, groselha, manada, fachada, isopor, valeta, vagina, pênis, pinto… pênis ou pinto, doutor? Pinto (disse o doutor, em sussurro). Tem cura? Humm, grave. Grave?! Parece…vejamos: experimenta dizer me-ren-gue. Não sai. Não sai? Não, é suave! Não sai e ponto. Doutor pegou o estetoscópio (ai, estetoscópio me assanha de tão voraz vocábulo que é) e me auscultou o coração. Ouve o quê, doutor? Tu tum, tu tum. Ai, não fala isso que o senhor me assassina! (por tão rude onomatopéia eu me derreti). Não falo o quê? Tu tum? Ai ai, é, não fala, não faaala! Doutor emudeceu e arredou a cadeira pra longe de mim. Pegou papel e caneta. Na receita, mandou manipular uma solução concentrada em 100% de monossílabos a serem repetidos (e não escritos) em grupos de cinco a cada duas horas e à meia-voz. Em uma semana, doutor aguou minhas artérias. Hoje, só escrevo cu em guardanapo de papel translúcido de boteco. O povo continua a não me ler: cu é quase invisível quando grafado com marca-texto azul-bebê.
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Teodora vive em descompasso. Acredita na bondade absoluta e na redenção pela cruz. Tem um coração sem gorduras, filé mignon. “Os corações não há que calcá-los com os pés, mas flutuar sobre eles, e tratá-los às lambidas da língua escovada e umedecida”, diz, enquanto pisam-lhe o órgão com um coturno amarelo Dr. Martens forrado de bosta na sola. Prosperará Teodora? Oxalá. Afinal, ainda faz sol onde ela habita.
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Calhou essa vez de sairmos à rua e toparmos com o obelisco de algodão doce do moço do algodão doce. Calhou d´eu pegar dois pra comer na hora e mais um pra deixar na bolsa. É assim que Teodora me cura uma vez por semana, arrastando-me pro sol e pras coisas vulgares da rua Maria Antonia. Andar e ver é profilático, ela diz, e nos alcança a graça da convivência, ainda mais quando tudo o que a gente não quer é a vivência com. Mas naquela manhã eu já havia alforriado a casmurrice e feito voto de silêncio, sobre o qual comuniquei Teodora com um bilhete na porta: hoje não falo. O algodão doce foi amenidade de um suspiro só. Concedi e sorri pro ambulante quando ele apertou a buzininha de palhaço. Casmurrei de volta e puxei Teodora pelo braço a caminho do cemitério. Só lá eu poderia calar sem que ela insistisse em me ensinar superioridades – por respeito, Teodora não fala entremortos. Em quase duas horas passamos por mais da metade das alamedas. E não houve ali nenhuma poesia cliché de jardim mortuário edificante – farfalhos, luz solar entre copas de árvores, revelações anímicas. O passeio foi é violento. As lápides e os coveiros estavam tão imundos e rotos e as flores nos vasos tão desbeiçadas que o estar morto me pareceu uma grandissíssima brutalidade estética. Salvavam-se da feiúra endêmica apenas alguns anjos de pedra e suas panturrilhas com grossas artérias. Parecem sanguessugas vivas. Foi tudo o que eu disse naquele dia.
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Dia de crueldade é quando crio um personagem e o suicido pra experimentar nele a morte que não assumo.
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Malamada Belém, que nunca jamais sequer pra sempre amou ousou amar ou amará vestígio e nem borrão de homem de carne-e-defeito. E agora, veja se aceito, quer me enganar que o amor da Terra é pastiche só porque estou com essas fraquezas no sistema nervoso central. Se ela é célibe, o que me toca nisso? Sou lá ambão de vocação alheia? Belém acha que me eleva o espírito à custa de rebaixar o que sinto pelos homens da Terra. Ora, Belém – imprequei –, faça-me o favor e o bigode (o seu), porque isso, pra mim, é intriga de mulher com buço perpétuo. Falha-me o trânsito da serotonina, mas não a inteligência do coração. Que mal me faço se permito ao homem que elejo que me deixe em transe de amor ao abrir para mim sua maçante rotina só pra me amalgamar nela?; se permito que me estenda o bruto pé às nove da noite pr´eu lhe azeitar as ranhuras e, às dez, que me azeite ele mesmo como melhor lhe convém?; qual transcendente código do amor puro eu infrinjo se deixo que o homem eleito me admire os glúteos, que confunda meus glúteos com outros, que me perca por descuido, que me resgate quando desespera, que me traia por fraqueza e que me traga, pra me surpreender a vida e angariar meu perdão, pizza de calabresa e um buquê de crisântemos sortidos que nem por inspiração divina ele aprenderá que odeio um e outro? Veja, Belém, aqui na Terra, uma calabresa honesta pode ser tão redentora quanto a Cruz Santíssima num dia de arenga conjugal. Sou só humana, e me dou melhor com meus iguais de barro. Malamada Belém, se a curiosidade não te ofender a consciência, mete a mão no húmus e aceita ser gente pelo menos uma vez; comece por se purificar do pecado que te exila da espécie: acaba já com esse bigode, porque homem da Terra é bronco, mas gosto transcendente ele tem.
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O bloco de receituário ideal é púrpura com rajadinhos degradê em tons de amarelo. Sem o branco habitual dos sisudos blocos timbrados – ou o fatídico azul para a prescrição de remédios guardados nas salinhas proibidas das farmácias – o paciente sairia da consulta com menos pena de si do que entrou – mais de carne e fibras, portanto, e menos de isopor derretido. Nos blocos púrpura, a receita para os que têm nariz aquilino, por exemplo, seria um quadro de si mesmo – pintado de perfil por um artista canastrão – pendurado à entrada de casa (em tratamentos de choque, haveria uma inscrição ao pé do quadro: aqui mora um nariz). Para os que sofrem de desinteria, vitamina de paçoca Amor e café pernoitado – quente, pra expurgar os males num só jato. Para os sem talento, uma apresentação, em rede nacional, das suas melhores desabilidades. Aos feios, a cura no bloco púrpura estaria prescrita numa mono-setença: raspe-cabelos-sobrancelhas-e-valorize-os-traços-que-não-se-coadunam-adote-a-feiúra-como-propósito. Para os difíceis males conceituais dos que muito se subjetivam, a receita mais simples cintilaria: testemunhar crianças num parque desvirtuando o mundo com seus empirismos de sonho: se eu plantar sementes de várias frutas no mesmo lugar nasce árvore de tu-ti-fru-ti. O médico ideal tem apenas blocos púrpura em sua maleta, e vai ao circo toda semana pra ter ideias de curas milagrosas.
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A vida é um nabo. Quem disse isso? Alguém sem verve que me disse. Nem ri. Porque a vida não é nabo e metáfora alguma a faz mais palatável ou cabível. A vida é uma, e dela só sabe quem é o dono. Eu sou ordinária em sentido lato, e é dessa virtude que me valho pra existir sem prestar contas do pequenino que também sou. Penteio o cabelo sempre no mesmo sentido, amaino dores prosaicas com paracetamol e repouso, faço planos, amo, minto por necessidade, nunca por convicção. Quem acha que digo isso pra chocar é porque ainda não viu minhas calcinhas esgarçadas penduradas no box. Isso, sim, é uma afronta. Dói? Em mim não, porque gente é assim, escatológica e poética, um nobel de física com uma puta unha encravada no dedão (isso é metáfora pior que nabo). Se for pra eleger, metáfora boa é carnaval porque cabe em quase tudo: sexo, família, morte e outras pastagens são carnavais de infinitos sentidos. Do carnaval sem metáforas gosto mesmo é da fantasia. Já fui cigana, cachorro, monstro e abacaxi de um metro e vinte. Transubstanciada, é no carnaval que perco a vergonha de não saber dançar e me descubro melhor dançarina que todo mundo. Fantasia é coisa tão séria que não tiro a minha do corpo até que ela perca a última lantejoula. Mas fantasia que não se repara logo depois da festa descolore e míngua até ficar irreconhecível, como os amores que planto no baile e não rego. E isso não é uma metáfora.
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Houve um concurso de originalidades. Levaram pra sala cadarço feito com arame, caderno encapado com folha de bananeira, bolinha de gude que virava comestível depois de lavada (azeitona galega sem caroço) e até um apagador de lousa com um cotoco de giz na ponta que apagava enquanto escrevia – ou o contrário, segundo a vontade de quem o empunhava. Era tanto invento que a professora retirou carteiras da sala pra fazer caber as crianças-e-suas-crias-sem-par. Eu levei minha originalidade na boca: a palavra palavra. Mas a palavra palavra já foi inventada assim como é – disse a professora. Mas não foi inventada assim como está – repliquei. Como estava, na minha boca, a palavra palavra era outra coisa, borbulhava porque eu lhe dava o portento de dançar sozinha na minha língua (raciocínio assim eu não tinha na época; intuía mais que pensava). Prossegui como num púlpito: todo mundo repete palavras sem saber que elas são PA-LA-VRA; ninguém fala palavra sozinha, assim, palavra, palavra, palavra. Eu falo: PALAVRA! (e sorri sem respaldo pra caras muxibentas de tédio). O menino do cadarço de arame, pra me tirar a glória da réplica e o prêmio do concurso (dois pintinhos vivos tingidos de rosa), advogou para o diabo já aos 8 anos: mas é claro que fala! A professora mesmo fala nas lições que pede, por exemplo, pesquisem pa-lllllllllaaaa-vras no dicionário – quanta maldade pode haver numa língua que se prega no palato. A classe despencou em buuuus e uuuus e risadinhas de agulha. Eram todos pra mim. Quase chorei, mas preferi perder a candura. Tirei tênis, meias, fui até uma das extremidades da sala e agachei quase tocando a bunda no chão. Caras de espanto me pediam que não, mas eu lhes soquei meu sim pelos olhos e ouvidos: atravessei a sala de ponta a ponta cinco vezes pulando como um sapo e repetindo PALAVRA aos gritos. Parei por cansaço. E então, professora, alguém fala palavra assim? – desafiei. Aterrorizada, a mestra quis me exorcizar – a voz quase não lhe saía: menina… menina… é Deus o autor da palavra como ela é, do verbo… desde… desde o princípio. Deixei a sala sem pedir licença e fui ao jardim cutucar lagartas com graveto. Vencer concurso de originalidades tendo Deus como concorrente é tarefa inexpugnável pra quem nasceu depois do mundo.
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Em Sevilha, na Espanha, está abolido o sibilar dos ésses e dos cês e o vibrar dos zês porque lá os dentes e a língua abundam na boca das pessoas. Sevilhano diz Zapatos, dieCiocho, ceniCienta e come biscoito de aCeite y aZúcar com uma suculenta línguaentredentes. É um povo que submete a própria carne ao fio traiçoeiro dos incisivos centrais pra dizer amenidades. Não serão todos vermelhos de vontade e bravura por dentro? Em São Paulo, descobri e visitei uma cartomante sevilhana só pr´ela me descortinar o futuro em espanhol. Hija mía, mientras estés como los perros que buscan en la basura qué comer – tu buscas qué vivir –, saca provecho pa´ que tu corazón crezca en humanidad, pues sólo cuando el hombre toca lo que no hay de hombre en si mismo es que puede ser más hombre que los demás, pues mira al prójimo a los ojos buscando en ellos, como en dos luceros, la claridad de su humanidad perdida. Hay que engrandecer el corazón, hija mia, hay que engrandecer el corazón!, ela me disse, com perdigotos flamejantes – co-ra-zón entredentes – chamuscando minhas pupilas.
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A abadessa Joana Angélica escalava o muro do convento às três da manhã. Com a mão esquerda e as pernas enroladas à teresa feita com lençóis, ela descia os três andares do forte; com a mão direita, cortava os compridos cabelos usando uma tesoura de costura. Os fios castanhos caíam no pátio e formavam um círculo orgânico sobre o qual a religiosa despencou faltando dois metros para chegar ao solo. Àquela altura, ela já estava com os cabelos à João. As demais religiosas haviam fugido do convento minutos antes usando o jardim dos fundos; coordenara a fuga a própria abadessa, que amava suas irmãs e as protegia mais do que a si mesma. Restavam ainda alguns segundos para que Joana Angélica terminasse de se guarnecer antes que os soldados portugueses invadissem o convento. Com a tesoura rasgando a pele da cabeça, ela cortou o máximo que pôde dos cabelos. Ao renegar o próprio corpo e revestir-se com a valentia do altruísmo, Joana se preparava espiritualmente para o martírio que esperava por ela na ponta das baionetas e do pênis dos soldados. Quando os militares finalmente chegaram ao pátio, sóror Joana Angélica colocou-se feito muralha diante deles, careca e com os braços abertos em cruz, ao modo do esposo morto há quase dois mil anos. Só passarão por aqui por cima do meu cadáver, ela disse. Os militares passaram, claro, mas não sem antes lhe roubar a pureza que era só do Cristo. Fecharam-se as cortinas. Foi com essas licenças poéticas que um desconhecido dramaturgo contou, no teatro, a história da abadessa Joana Angélica de Jesus, que morreu defendendo o convento da Lapa, na Bahia do século XIX. Eu, que não temia inimigos externos, mas a mim mesma, cheguei em casa aquela noite e cortei tudo o que pude dos meus cabelos e roupas com uma navalha. Despida do que me guarnecia por fora, tive que buscar refúgio no que havia de abadessa por dentro.
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Teodora, não me ama assim, tanto, de graça, que eu não suporto. Não é que não te alcanço o amor porque não quero, é porque nasci com um defeito: 8 costelas a mais, todas muito juntinhas ao redor do coração – ele, feito pelicano sentenciado em gaiola de apartamento, tem que sair pra ser. Mas chave de coração encarcerado é coisa que só existe em poema naif que a gente escreve na segunda série. Hoje a vida tem muros e cerca elétrica. Quer um conselho, Teodora? Não tenta abrir a gaiola com as mãos delicadas. Bota um coturno, toma distância, corre e me arrebenta a porta com uma voadora no peito. O que escapar é teu.
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Mortalidade é defeito pétreo e me dá pudor, pois é certo que, morta, serei despida, vista com lupa, terei as tripas e reentrâncias remexidas (e também meus cadernos), perscrutarão minhas gavetas, meus segredos embaixo da cama e os testemunhos das pessoas que falarão de mim no meu velório. Por contraposição de dados, descobrirão quem fui e eu não estarei lá pra me defender. E se estiver, feito uma geléia translúcida como se vê nos filmes, vou tapar os ouvidos pra não sofrer a vergonha alheia pelo que está sendo dito daquela coisa desanimada ali estendida. Minha pudicícia maior é que em suas escavações particulares, meus amigos descubram que não fui uma, mas tantas, e que menti sobre meus nomes. A morte me dá pudor, mas não chego aos cúmulos. Sei de gente (mulher, claro) que sai de casa preparada pra morrer na rua: depilada, calcinha boa, batom e banho tomado. O que me cumula na morte é seu poder de me tornar relapsa. Basta a metafísica apertar além da conta e me embaralhar a vida pr´eu me sentar na poltrona e não querer sair de lá nunca mais. Puta merda, eu penso, e me sento em seguida, com antolhos de burro numa têmpora e outra. Porque, se tudo acaba ali no fim da rua, qual a necessidade de retomar a marcha? Mas esse é um pensamento grosseiro – um pensar vagabundo, de gente com antolhos. Porque é evidente que nada acaba ali no fim da rua. E não falo da alma que vira geléia translúcida e continua vagando por aí depois da morte, peladinha e flutante. Falo do amor dos vivos que reverbera mesmo quando não estamos, desse amor comezinho de quem, por exemplo, liga dizendo que vai ao mercado e pergunta se não precisamos de alho em casa ou alguma coisinha assim. Nesse telefonema ordinário o alho é pretexto, e a pergunta nele inscrita é: você vive? Como defraudar alguém cujo cuidado amoroso é oferecido ao preço simbólico de uma cabecinha de alho? Abandono a poltrona uma vez e outra. É o amor dos vivos, e não a certeza do esquife encalacrado no solo, o que me força a marcha e me enraiza na Terra.
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Havia um perfume, perfeições coladas com durex na parede, cabelos, coxas e fotos do futuro, mulheres árabes de rosto velado, meia-noite, asfalto, silêncios e solitários frevos. Mariposas de carne faziam a ronda em torno de um frasco amarelo cravado no meio da sala. No rótulo, capitulares gritavam: pega, é amor em potência. Mas, de repente, eu não tinha mãos, tinha uma só pata de cavalo. Acordei, e o frasco ficou preso no sonho.
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Ai, como me mortificou a miséria daquela mulher que assinava “um tipinho retraído” nos classificados da revista Grande Hotel, de 1952. Ela gemia assim: nunca amei, anseio por ser amada, sou tipo mignon, morena clara, cabelos compridos levemente ondulados, 21 anos, 1,55 m, trabalhadeira, pobre, simples e sincera; almejo corresponder-me com rapaz de altura e idade superiores às minhas, que seja livre e de coração honesto, sincero, trabalhador e com boas intenções. Assinado: Um tipinho retraído (Cachoeira do Sul). Verdade que até engrandeci lendo aquilo, porque a miséria alheia tem essa delícia vil de nos amplificar diante de quem está de joelhos ou prostrado – mas isso ninguém biografa. Retratei-me indo até 1952, à casa da mulher do anúncio. Perpetrei um milagre para fazê-la feliz: dei-me bigodes, 1,75 de altura, colete vinho e, em vez de uma caixa de bombons finos escondida às costas, levei na lapela um coração cheio de misericórdia e um bocado de lascívia – não se salva mulher só com bondade. Disse-lhe que era o rapaz implícito na carta, que também era de Cachoeira do Sul e que, além de tudo, tinha bons rendimentos, uns aplicados e outros na carteira. Ela atirou-se aos meus pés feito aos de um Cristo prestes a ascender. Aderiu ao meu corpo com as unhas em gancho e eu ao dela, enroscando-a com um insuportável amor à sua pobreza de cortinas de chita e às suas nádegas intactas. Entendemo-nos. Ela já não podia mais dizer que nunca fora amada. Suspendi-a do chão, ajudei-a a vestir a anágua e a camisola de flanela, beijei-lhe a testa e saí, transfigurada de misericórdia, pronta a soprar esperança no coração de todas as mocinhas retraídas de 1952.
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Achei que adivinhava. A palavra da vez no programa de tv tinha sete letras, apenas duas eram vogais. S era a primeira, a terceira, N, a quarta, G, a quinta era R, depois A, e R de novo. S_NGRAR. Sangrar! Sangrar!, eu gritei ao telefone. A buzina tocou em reproche, vaias enlatadas, gongo, prêmio perdido. Não era sangrar. Mareada com minha desatenção, Teodora saiu da sala com as velas recolhidas, um barco à deriva cuja salvação está na mesma vogal que a mim faltou.
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Gozoso é o mistério do fio da faca que, chegada a hora, lanhou feio meu rosto, abrindo um extenso mar que depois secou. Gozoso é o talho esturricado e franzido contrastando com o sorriso intacto, dizendo dele que, se sorriso fora antes do corte, agora tanto mais, com a cicatriz medonha emoldurando a expressão de gozo interior, os dentes expostos e brilhantes de esmalte a subjugar, precisamente, a cicatriz medonha. E por que você escolheu contemplar os mistérios gozosos logo hoje, sexta-feira, que é dia dos dolorosos do Cristo?, perguntaram-me, com as boquinhas franzidas em cu, cheias dum escândalo ortodoxo. Porque agora mesmo o Cristo não está no madeiro, deixou o trono e me busca para me levar ao baile. Ao baile?!, empertigaram-se. Pois sim, ao baile. É quando ele descansa. Mal estava seca a espuma rábica dos fariseus e o Cristo chegou, todo lindo, nu e sem cravos. Quer dançar?, perguntou-me, sem se preocupar em esconder de mim o punhal. Quero, respondi, e ele, terníssimo, penetrou outra vez a lâmina na carne do meu rosto, rasgando minha boca no lado direito, do vértice ao lóbulo. Abriu-se o mar vermelho. A espuma das ondas fugidias tremulava e soava como valsa. Ele me tomou pela cintura e disse que não me importasse com seu sexo, pois ali as distrações do mundo estavam todas sublimadas. As moças e moços do povo rasgavam as vestes todo putinhos. E teu corte, dói?, Cristo quis saber. Menos que o primeiro, eu disse, deitando a cabeça no peito dele, à direita, com meu mar vermelho sobre seu talho esturricado. E o teu? Qual? Esse aqui, ó, feito à lança no teu peito. Dói nada, boba, é carapaça. Dançamos, Cristo e eu, passando as contas do terço com os dedos dos pés, matando as convicções do mundo, contemplando mistérios gozosos numa sexta-feira de dores vermelhas, enquanto eu refrescava as minhas no unguento mais saboroso: uma valsa bailada no corpo dilacerado do Cristo.
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