Não há história tão grande que não possa vir embrulhada num trapo de chita, nem história tão pequena que não valha a pena ser lida sem motivo aparente.
Desaconteci. Desconheci de repente o monolito no espelho: eu? Quem? Desfareleci. Dormi sã e acordei desnomada. Doutor disse que era cabeça; mãe disse que era cigarro e friagem; padre apostou em males do espírito – é o coração raquíííítico. Desacreditei um e outra e outro e fui à feira como num dia normal querendo dar motivos pro mundo me reconhecer. Seu Jovélio teria que me dar bom dia, dona. Seu Pedro, bom dia, moça, já vai cedo? A calçada em atrito com meus pés projetaria meu corpo para o futuro ali adiante; o cão vagabundo farejaria minhas pernas pra investigar o entorno em preto e branco; eu mataria formigas sem ver e levaria a mão à boca ao espirrar; os motoristas aguardariam minha marcha sobre a zebra do asfalto e eu chegaria à feira sem desditas, repetindo ordinariedades amistosas, irmanando-me com os humanos ao me guiar pelo mundo usando a bússola que todos levamos por dentro: uma tal que aponta pro norte da rotina e nos livra dos sustos de tragédias e esplendores desconhecidos. Tudo sucedeu assim. Por fora. Por dentro não. A paisagem se despigmentava ou era eu que desalvorecia? A barraca de folhas tinha mais vida do que eu podia suportar. O agrião, por exemplo, se soubesse e falasse, diria isso de si: sou verde e parrudo. Crudelíssimo. Eu sabia, falava, mas não me descrevia. Descria da desvantagem que levava por saber. Pedi um maço só pra alimentar a inveja. Paguei e voltei. Na pia, o agrião verdejava sem querer, e eu, querendo o oposto, desaguentava fininho, um filete de gente. O dia terminou com o telejornal mostrando imagens de enchentes no norte do país. Na tela, close numa plantação de agrião submersa; close no dono do campo alagado, um velho curtido chorando o susto que sua bússola não indicou. Aquilo doeu em todos, nos que vendiam e nos que compravam verduras. Só não doeu nas folhas afogadas, ignorantes de si mesmas. Bem-aventurados os que nascem agrião, gritava o pastor na TV. Dormitei. Sonhei que acordava desacontecida e sem ciência de ser ao revés, desumanada e verdinha, embrulhada e vendida na feira como um maço parrudo.
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Um tiro. Pá! Seco e quebradiço. Corri à janela pra ver quem era. Dona Doida, à direita, levantava o vestido azul de menina rota de Renoir e arriava a calcinha pra urinar entre as árvores da avenida Higienópolis. Imprecava contra as vozes, inimigas suas que lhe recordavam sempre quem era. Puta é sua mãe! O tiro não foi pra elas. Dona Doida voltou a dormir no meio-fio. À esquerda, quatro da manhã e ninguém mais existia em matéria na rua Maria Antônia. As pessoas minguavam às onze e meia e terminavam de existir às duas da manhã com os olhos fechados. Coisa que mais me dá poderes sobrehumanos é estar desperta nessas horas em que o mundo morre sob a ignorância do sono. Quem mais teria ouvido o tiro senão eu? Quem mais, às quatro, estaria pronto a investigar a sorte de um qualquer atravessado por uma bala enquanto ele ainda agonizava? Quem, senão eu, zumbi no sétimo andar, fumaria com gozo celebrando a descoberta de um crime oculto até para o assassino, semi-cego na penumbra de quem vi o vulto culpado e nervoso? Quanto poder, meu Deus! Na manhã seguinte, às oito, o jovem casal do 75 entrou comigo no elevador. Bom dia – eles. Bom dia – eu. Alheios ao crime daquela madrugada, foram à padaria quase na mesma passada que eu. Pegaram a fila do pão junto comigo e pediram cinco dos mais torradinhos; pedi os dois mais lívidos da fornada. O casal tinha uma cara limpa e boa e a boca deles exalava hortelã com juá. A mulher, sem mais, perguntou se eu havia dormido bem. “Passei a noite conhecendo o futuro antes”, pensei. – Sim, dormi bem, obrigada – respondi. A pergunta não era retórica. Pelos vincos nos cantos dos meus olhos, ela desvendava meus superpoderes. Saber demais dá rugas. No fim da vida, terei a topografia do mundo tatuada na cara, e meu rosto estará nas capas dos livros de geografia. Quanto poder, meu Deus…
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Fazia um calor de caldeirão bem onde eu não alcançava abanar: no espaço que vai do miolo do osso ao avesso da pele, mas sem transpassá-la, na extensão do corpo todo, do calcanhar ao centro do crânio. O couro da alma curtia além da resistência das fibras e em breve quebraria. No sétimo andar chegou-me, às onze da noite, a excitação dos calouros da rua Maria Antonia no primeiro dia de aula. Putas-que-os-pariram!, roguei. O burburinho quase abria a janela para sentar-se ao parapeito e me espiar expiando. Não estivesse eu morta, sem querer misturar-me ao mundo e suas alegriazinhas sem mais, convidaria uns três da multidão pra me soprarem o tutano a noite toda e me ninarem com as marchinhas de grêmio, cornetões e um roçar dos dedos cheios de tinta nas minhas têmporas. O calor começou no jantar, que foi assim: uma mesinha redonda, duas cadeiras (uma vazia), um prato, talheres, um copo e cinco minutos. Arroz com feijão e couve são execráveis quando não há alguém que lhe passe a farinha e pergunte: tem couve aqui, ó? (apontando entre o canino e o pré-molar); ou: viver te incomoda?. Ô!, eu diria, espargindo farinha pelas bordas do prato, nos cabelos e braços, querendo mostrar como a vida, àquela altura, havia perdido seus encaixes. Abri a janela e atraí a brisa que às duas da manhã estava só; os calouros já se haviam ido e com eles a alegria do mundo. Adormeci ensimesmada, emulando as virtudes da couve que não tem tutano abrasador e esmiuçando a memória em busca de uma voz que ocupasse a cadeira vazia no próximo jantar. Às duas e meia recebi uma visita. Ela não me despertou, desfrutou-me. Comeu os espólios da decomposição do meu corpo, peles, comeu meus pêlos, sugou o suor entre os meus dedos e percorreu a ponte branca do meu braço querendo alcançar o manancial da minha boca aberta simulando fartura. Despertei antes e pulei da cama ao chão com uma rapidez que não me pertencia. Ba-ra-ta-fi-lha-da-pu-ta!, gritei. Sob a luz ela recuou, correu para baixo dos lençóis. Eu a cacei, enfrentamo-nos. Eu venci, mas nem tanto. Esparramadas pela cama, porçõezinhas de bosta de barata-saciada-com-meu-corpo. Até às quatro não dormi, acuada num canto do sofá comendo sucrilhos com leite no açucareiro (faltavam copos), emulando a bestialidade dos calouros, a potência das cornetas e marchinhas idiotas, a impassibilidade da farinha que se deixa manejar sem nunca se queixar do próprio destino. Meus ossos, de tão quentes, comportavam tutano líquido, e o couro da minha alma crestava só d´eu respirar.
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Tenho uma saliência no caráter que é esta: gente manca me desvirtua o período fértil. Meu coração umedece com tal água que sou capaz, só de olhar um coxo, de conceber e dar à luz mil crianças que desenham equívocas formas na areia enquanto correm atrás de cachorros. Tem razão isso? Aos sete anos de idade meus amigos eram os obesos, os estrábicos, os bestas sem culpa, os de nariz remelento, os fedidos sem solução, as vítimas de estupro e os de cabelo vermelho – cheguei a bater num perfeitinho que pegou um extintor e o apontou a um ruivo só pra dele fazer troça. Simetria e fluidez nunca me valeram. Eu arrancava perna de boneca, galho de árvore e até quebrava ovo de páscoa nas prateleiras dos supermercados pra que tivessem a cara dos amores que eu sabia arregimentar. Talvez, assim, buscasse meus iguais: sempre intuí que era vesga, ruiva, besta e violada por dentro. Restringi meu apreço só aos mancos aos dez anos, quando meu ventre precoce arrebentou de tanto parir. Agora, aos trinta, me acossam uns tremores de abstinência. Quero de volta essa gente que, aos olhos da exatidão, foi entregue ao mundo num pacote amassado com a data de validade vencida. Oxalá as fibras do meu útero se recomponham pra eu parir um hipermercado inteiro, do tamanho universo, só com gente imprópria pra consumo.
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Decidi escovar os dentes para perpetuar com força a sensação de limpeza que escova e pasta juntas me dão mais que um ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Com espuma e detritos escorreram pelo ralo todas as impurezas borbulhando nos vãos da gengiva e do pensamento. Escovei meus dentes até que se esfarelassem entre as cerdas, e com eles a língua, a mucosa, o palato, as amígdalas, depois os ossos e o resto todo da cara. Chamaram-me do lado de fora batendo à porta do banheiro. Queriam entrar. Do lado de dentro, porém, onde o milagre ocorria, nem um gemido ganharam: de tão limpa, eu já não estava lá.
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Mas foi na página 165 que desfaleci de amor pelo príncipe idiota, prolixo e bom, esse de quem Dostoievski emprestou as entranhas de Cristo e as remoldou com massa de biscuit. Frágil e estupidamente sincero, o príncipe russo me salvou de ter uma pena mortal de mim mesma por causa das minhas canelas finas. Quando eu quis acreditar que toda pessoa é intrinsecamente mentirosa, e que a honestidade é uma corrupção do caráter – só assim me livraria do remorso de mentir que não uso saia porque frio embaixo me dói nas trompas de falópio –, apareceu-me o príncipe, no livro, anulando as dubiedades do mundo para tornar a verdade mais saliente – mesmo que saliente se tornasse, também, sua idiotice. Quem resistiria à suculência de um caráter que acolhe e expõe num vaso, feito um lírio estupendo, as próprias misérias? Teodora logo notou que eu estava de caso com alguém superior: eliminei a cera inútil das palavras e passei a suspirar e depilar as pernas com mais frequência. Vai sair?, Teodora me perguntou numa sexta-feira à noite (eu com um vestido expondo as coxas, nuca à mostra e um buquê nas mãos). Ãham. E vai aonde? Se eu já havia chegado ao fim do livro, aonde mais iria senão me casar com o homem que me acolhe as misérias? Na carteira do príncipe há, hoje, duas fotos: uma nossa, nas bodas, e outra só minha, linda, dos joelhos pra baixo – dois lírios estupendos.
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